Crônicas

Bem baixinho em seus ouvidos

Wallisson Silva

O peixe de cera

As flores de papel

Abre a porta

A criança e o medo 1

A criança e o medo 2

A melhor profissão do mundo

 

 

Bem baixinho em seus ouvidos

Primeira semana de trabalho como professora. Isso foi há muito, muito tempo. Era uma escola pobre e por isso entrei nessa função logo no início da faculdade.
Entrou na escola soluçando, gritava, não queria ficar, a pobre menininha. Dona Teresinha, a dona da escola, no alto dos seus sessenta e sete anos bem trabalhados, chegou, pegou sua mão, sentou-se com ela no balanço e disse algo bem baixinho em seus ouvidos. Ela parou de chorar no mesmo instante. Sem susto, sem assombro, acenou para a mãe um adeus. Simples assim. Fiquei boquiaberta. Aquilo parecia mágica. Mistério que levei muitos anos para entender. E outros mais para alcançar.
A partir daquele dia, passei a observar professores e colegas mais experientes. Muitos trazem consigo uma aura nobre, uma aura de ternura que não sei definir bem. É uma luz diferente, algo especial que as crianças captam imediatamente e os adultos olham e respeitam. Geralmente falam muito baixo, riem ou reprovam apenas com o olhar e passam imperceptíveis quando não se querem fazer notar. São discretos, falam pouco. Ao mesmo tempo, são queridos, são alegres e espirituosos, são amados, e, se notados, são cercados por crianças e jovens imediatamente. Ouvem e calam confidências. Sabem muito mais que demonstram. Sabem muito menos do que gostariam e estão sempre procurando o que estudar. Ajudam e pedem ajuda. Gostam mesmo do que fazem. Gostam de gente e suas mazelas os encantam.
Ali, ao olhar o balanço, às treze horas de um dia qualquer, tracei meu objetivo de carreira: desenvolver em mim aquela aura. Aquela aura que irradia paz, segurança e acalma, eu a queria para mim.
Nunca achei nada sobre isso em compêndios, nem livros, nem em cursos de duas horas. A faculdade também não falou do assunto, embora tenha me enchido de vãs teorias que nunca usei. Didática... hummmm...sei.
Devagar, após vinte anos, às vezes crianças em desespero param de chorar enquanto falo de uma abelha, de uma flor, de uma bobagem qualquer, como a extensa lista de compras que os pais têm fazer e do quanto precisam trabalhar para ganhar dinheiro para essas compras enquanto o filho está na escola. Eles costumam concordar, porque o feijão sempre esteve pela hora da morte. Também fazemos a lista de móveis da escola, que nunca tem camas para a noite de tanta gente. Ninguém dorme na escola porque não há camas para todos, por isso é preciso ir embora logo após o fim das atividades. Esse argumento já me ajudou muito.
O assunto importa pouco. Importa o tom, o som, o domínio de mim mesma nessa entrega muito íntima que faço à dor do outro. Muitas vezes percebo suas necessidades sem precisarmos conversar e acudo. Isso é bom e bonito, me faz feliz.
Talvez essa aura se chame experiência. Talvez verdade, honestidade. Talvez se chame dedicação. Se eu descobrir, prometo escrever pelo menos um artigo de orientação.


Wallisson Silva

Dia das professoras, de novo. De novo, para aquelas que já estão no caminho há algum tempo. Mas para outras, o primeiro, a abertura para essa vida.
Lembro-me do meu primeiro dia das professoras: os alunos chegando com presentes: um, com um conjunto de lingerie cor-de-rosa; outro, com uma linda blusa pintada a mão; outros seis, com uma jóia fina; um com um vasinho de flor artificial; uma com uma rosa bem vermelha. Um, de mãos vazias e olhos muito baixos. Eram todos tão pequenos, tão pequenos, com um coração tão grande.
Ao final da tarde, a dona da escola ordenou que não fôssemos embora e nos ofereceu um lanche, para mostrarmos os presentes, umas às outras. Algumas riam do que ganhavam, criticavam, achavam feio, maior, melhor, pior que. Comparavam. Os melhores presentes eram para as melhores professoras?
Minha vez de mostrar, cada coisa. A jóia fez muito sucesso. O vasinho de flor artificial foi considerado um absurdo, mau gosto da mãe (mas a criança falou que ela mesma tinha escolhido para mim.)Eu tinha doze alunos e não ganhara doze coisas. Nem de todos. Professora ruim, então. Era? Um aluno nem tinha trazido presente!Que desleixo de família!
Era o Wallisson Silva. Ele morava numa casa cheia de pessoas. Era a avó quem criava, entre primos mais velhos, tios desempregados. Um deles até fora meu colega, na mesma escola, quando criança. Bem, sempre que eu ia para a casa de meus avós, via aquela criança subindo a rua, ao invés de descer. Fazia mesmo um caminho diferente das demais. Mas minhas colegas não sabiam disso.
A escola, que ficava num bairro nobre de Belo Horizonte, estava situada logo na entrada da favela, no alto do morro. Então, tínhamos alunos que podiam dar jóias e alunos que podiam dar... E ele morava lá.
No meu primeiro dia das professoras o Wallisson me deu suas primeiras palavras (sim, ele praticamente não falava). Que foram: _Tia, posso te dar um beijo e um abraço?
Esse foi com certeza o meu maior e melhor presente. O inestimável, o inesquecível. A blusa se perdeu, o vasinho também, a lingerie nem chegou a servir, a jóia não posso usar em dias de violência. Mas o abraço eu ganhei inteirinho e o beijo também, só pra mim.
Naquele momento percebi que estava mesmo no caminho certo, que aquela seria minha definitiva profissão de amor e de fé, vocação mesmo. Minhas colegas nunca souberam o valor daquelas mãozinhas vazias. Talvez tenham continuado comparando, sofrendo desprezos de mães, sem conhecer o mínimo da história dos alunos.
Ele era pequeno, certamente não se lembra disso, nem da tia, que com dezoito anos passou a preencher nos formulários de pesquisa o campo das profissões assim: PROFESSORA.


O peixe de cera

Esse caso é da minha segunda turma. Eram crianças de três a quatro anos, mas o menininho faria cinco em julho. Por isso, seus desenhos eram sempre os mais elaborados, dignos mesmo de exposição.
Um dia ele desenhou um peixe dourado lindo, com escamas e bolhas, uma verdadeira obra-prima. No auge da minha arrogância, pensei em quanto era bom desenhar para meus alunos verem. Eu tinha dezenove anos e sabia tudo.
Sempre desenhei muito para meus alunos, mesmo sem ser desenhista. O princípio é um só: aprendemos tudo por imitação. Imitação não é o mesmo que réplica ou clonagem, vejam bem. Mas aprendemos a falar observando quem fala. Aprendemos a escrever, a andar, a comer, observando. E nunca fazemos nada igual aos outros. Com o desenho é a mesma coisa. Eles viam os desenhos e imitavam, recriavam, transcriavam e, por fim e melhor, transgrediam.
Enquanto eu assim filosofava, o peixe sumiu embaixo de gestos rápidos de giz de cera azul escuro. Acho que gritei em desespero. Mas só por dentro. Mesmo. Aquilo poderia ser um ato de fúria, um descalabro, um sinal de síndrome ou revolta com a vida. Um traço maníaco de depressão, talvez? Fui me achegando suavemente e perguntei bem baixinho para não causar maiores problemas. Eu tinha dezenove anos e sabia até diagnosticar crianças.
__ Por que você está fazendo isso?
Não me lembro bem. O meu era um grito interno em prol da obra estética que ia parar no mural estático, justo o peixe dourado com escamas! A direção iria gostar mais de mim depois desse painel, por que, oh, por quê? Eu tinha dezenove anos e queria promoção.
O menino sorriu feliz e disse:
__Porque senão o peixe morre, tia Fê. Ele precisa de água para nadar!
Quem te ensinou a nadar, professora? Foram os peixinhos do mar. A água do desenho dele, de repente parou na ponta dos meus olhos e brilhou mais que a escama do peixe submerso em cera azul. Peixes, mesmo os de giz, não podem viver fora da água fria do oceano de papel, onde celenterados, cavalos-marinhos, focas, até focas! nadam e sobrenadam em movimento vivo, pintados com as cores disponíveis, com as cores móveis que tem o mundo em rotação nas luzes do dia, da noite, da tarde. Tudo muda de cor, tudo é de cor nenhuma. Tudo vive no mar interior do ser humano que acabou de chegar ao planeta. Eu era uma criança, e entendia tudo.


As flores de papel

Quando eu tinha cinco anos, um dia minha irmã mais nova chegou da casa da vizinha dizendo que também queria ir à escola. Eu nem imaginava o que era isso, mas logo percebi que aquilo não ia prestar.
Minha mãe se animou com a ideia, comprou roupas iguais para nós, e, como gêmeas com anos de diferença, porta abaixo, descemos o morro de casa rumo ao ponto de carona, porque ali não passava ônibus. O jeito era esperar pela Kombi branca do trabalho do meu pai.
Chegamos à tal escola, que era uma casa comum, sem grandes novidades por fora. Nas paredes, flores de papel brilhante. Não entendi o propósito daquilo e de cara, naturalista, besoureana que eu era (sim, eu brincava com besourinhos dourados no jardim cheio de cravos alaranjados na minha casa), não gostei. Não gostei mesmo.
Mas o resto você até já sabe: tive que entrar, me sentar, ficar ali. A tarefa do dia era fazer bolinhas amarelas de papel crepom. Eu fiz com tanta raiva, com tanta tristeza, que me saíram pequenas, mancharam meus dedos e a professora deve ter reclamado, porque acabei fazendo umas maiores, embora para mim, aquele papel amassado passasse longe de ser uma esfera perfeita. Perfeitas eram minhas bolhas de sabão feitas em casa, no tanque, com o sabão de côco. Mais bailarinas, bonitas e coloridas também. As minhas esferas continham arco-íris!
É isso o resumo da ópera. Descobri logo no primeiro dia de aula que a escola estava ali pra me enganar. Flores de papel, roupas iguais para todo mundo, esferas despendongadas de celuloide, um fiasco, uma perda de tempo total.
Fui crescendo e, cá ente nós, a impressão não mudou muito. Na escola eu tinha que ler escondido meus poemas preferidos; tinha que esconder minhas agulhas de tricô para poder tecer em paz, embaixo da carteira; tinha que esconder os porquinhos-da-índia na mochila, se quisesse levá-los. E mais tarde, ai...nada de poder namorar também.
Tudo poderia ter acabado quando eu me formei. Mas então resolvi que aquilo tudo tinha que ter me servido para alguma coisa. Eu nem sabia o que queria da vida. Incerto dia, tocou o telefone de casa, peguei minha mochila e fui ser professora.
Até hoje procuro um sentido para as flores de papel nos murais que, sem cheiro, nem são bonitas. Minha balança é esta: se estão irregulares, mal pintadas, com manchinhas de cola em forma de digitais, está bom. Se me perguntam o motivo, é só um, simples: alguma criança passou por ali e deve ter aprendido, pelo menos a cortar, deve ter se lambuzado de guache e feito casquinha de cola no dedinho. Casquinha de cola é bom demais da conta! Quase tão bom quanto ver arco-íris, em casa, nas bolhas de sabão!
Pensando bem, não foi assim, tão ruim: a escola me ensinou a amar o imperfeito e a desconfiar do belo. E isso, enfim, não é ser humano?


Abre a porta

Primeiro dia de emprego novo. Entrou na turma dos pequeninos e todos se sentaram em roda. Todos, menos um. Enquanto cantavam, olhinhos arregalados diante do violão e da mochila cheia de coisas, o menino azul corria pela sala, falando fragmentos, gritando, bravo às vezes. Até que fugiu, deixando turma, local e ela ali, entre véus coloridos, fantoches e pulgas atrás da orelha.
Voltou. Reconduzido por outra pessoa, prosseguiu num tatibitate alucinante, vez por outra passava a mão nas cordas do violão. Ou tampava os ouvidos em desespero.
De repente, saiu da bolsa preta o jacaré de feltro verde, dentes brancos e língua vermelha. Aproximou-se. Pegou o jacaré e, enfim, se sentou. Foi assim por muitos meses. Entre fragmentos, gritos, fugas, o oásis do jacaré. Uma fera brutal de brinquedo apaziguava o menino?
Até que um dia ele veio e disse sem a olhar nos olhos:
__Tib tib riri ti ri ti bau, obo bau.
__Entendi. Então você quer que eu cante isso?
__ ...
__Hoje ele veio. Quer ver? Está aqui na minha bolsa.
Deu-lhe a mão, pela primeira vez. Era o dia das primeiridades.
Abriu a bolsa, pegou o fantoche peludo, preto, de engraçada gravata em cetim azul e suspensórios. Deu-lhe percebendo que o melhor estava por vir.
Naquela hora, plano B. Nada de música, nada de violão:
__Era uma vez, três porquinhos...blá blá blá. Então, o lobo, de repente disse. O que ele disse, lobo? Diga, lobo.
__Aaa-bre aaa pooorta!
Os colegas gritaram num susto:
__Ele fala!
Uma frase-chave inteligível. A primeira. Justamente essa. Uma porta enfim se abria, para tudo o que viria depois e mudaria o olhar dela, pare sempre e sem volta. Cativada pelo jacaré, encantada pelo lobo, o jeito era seguir pela estrada afora, de mãos dadas com um, outro e o menino. Em suas mãos, um cestinho cheio de perguntas. Em seu caminho, luz e borboletas.


A criança e o medo 1

__Conta uma história para mim?
Sejamos sinceros, pois entre mim, que sou mãe e professora há muitos anos, e você, que me lê porque provavelmente tem uma criança aos seus cuidados em casa, não deve haver hipocrisia de nenhuma espécie: nos dias em que chegamos exaustos de um dia cheio, ouvir essa frase chega a dar arrepios. É ou não é?
Pois é. É aí que começa a saga escolar e muitas vezes, o que chamamos, lá na Teoria da literatura de “Logro do leitor”.
Explico adiante. Voltemos agora à cena familiar.
A criança te chama e te pede para que lhe conte uma história. Você está sem forças, mas pega o livro colorido, entre resignado, irritado ou divertido e vai.
Geralmente, a história é aquela que você já contou milhões de vezes e é sempre pedida de novo, e de novo. Por que uma criança pede para repetir tanto a mesma história, filme, canção?
Respondendo em formato de pílula, a grossíssimo modo, em resumo-gota mesmo, é isto: a história de fadas traz em si vários níveis de significação que a criança acessa para resolver seus conflitos internos. Enquanto tais conflitos não são resolvidos, a criança pedirá que a história seja contada.
Que conflitos podem ser? Vários. Cito alguns clássicos: conflito entre irmãos; conflitos sobre o crescimento e a maturidade; conflitos em relação à mãe, ao pai, enfim, conflitos que todo ser humano precisa ultrapassar para ser feliz.
Agora, já para a escola.
No dia seguinte, mochila nas costas, lancheirinha com habitual cheirinho de azedo, parte a criança para escola. Lá, entregam-lhe lápis, crayons, papel e lhe treinam as mãos inábeis para a escrita. E os olhos para a leitura. Dizem ainda: quando aprenderes a ler, poderás ler o que quiseres, sem depender de ninguém. Prometem-lhe a liberdade de imaginar, de imaginar, de viajar sozinha com o livro nas mãos.
Mas...
Assim que aprende a ler, entregam-lhe livros os mais aborrecidos; contos de fadas com finais mutilados. Por quê? Porque os adultos, na ânsia da superproteção, não andam mais acreditando que a criança possa sobreviver a um medinho de vez em quando. Não enxergam que sem o regulador do medo, que é um regulador natural e que serve à preservação da vida, a criança se sente lograda, enganada, traída. São quase vinte anos de escola, para, no fim, ser submetida a literaturas rasas, a histórias muito ruins e que não lhe ajudam a crescer.
E assim, as famintas crianças fecham os livros e vão para a tv, o vídeo game sangrento, pois esses ao menos lhe oferecem alguma ação. Mas quase nunca respostas para seus conflitos.


A criança e o medo 2

__Professora, canta de novo a do lobisomem ou a da caveira?
Todos os anos, ouço essa frase mil e mais vezes, das boquinhas dos meus alunos de cinco anos após apresentar a eles a canção do Lobisomem.
Consideremos que cinco anos é um marco da infância. Cinco anos é uma mão cheia! Estão grandes, “quase saindo de casa”. Geralmente adoram a história de João e Maria, que trata desse movimento de sensação de saída de casa, de procura de um lugar para si no mundo, de aprendizagens para a vida prática (lavar, cozinhar, limpar, por exemplo), onde isso tudo se dá na cozinha de uma bruxa que, com requintes de crueldade, prepara a engorda do menino para depois comê-lo.
Maria salva tudo, usando ardis aprendidos com a própria mestra bruxa. Maria cresceu e resolveu a situação. Essa é a história que será lida e ao fim da página, a criança dormirá tranquila. Certo? Não. Ou ao menos, nem sempre. A bruxa representa muitas vezes o lado “mau” da mãe. O lado que exige. O lado que cobra, que ensina e pune os desvios.
Cá entre nós: isso é ser mau? Não. Isso é amar, é o amor que impõe limites e os vai alargando à medida que a criança está pronta para dar novos passos em direção a si mesma e ao seu autoconhecimento! O contrário é que é perigoso justamente por permitir que a criança cresça pensando que pode tudo e que a vida só lhe reserva o melhor, sem que para isso precise lutar, qualificar-se, ou seja, sem fazer nada para merecer o “bem”.
Mas novamente, a fim de proteger as crianças do medo (ou seria do nosso próprio medo de não dormirmos bem se por acaso um pesadelo ocorrer?), alteram as histórias. Punem a bruxa antes que ela possa transmitir suas importantes lições. E o que acontece? Fica tudo bem? Geralmente não: a Caixa de Pandora do Subconsciente foi aberta e agora terá que ser fechada. Essa caixa só se fecha depois de muito bem esvaziada. Os medos terão necessariamente que ser trabalhados até a criança resolvê-los por si mesma.
Enquanto isso não ocorrer, a bruxa dormirá embaixo da cama da sua pequena Maria, do seu pequeno João, e assombrará ao lado, provavelmente, do bicho-papão que deseja devorá-los e do gigante que vai querer esmagá-los ainda mais. Para a criança todo adulto é um gigante. O gigante não quer ter seu lugar tomado pelo mais jovem. Até os deuses se ressentem disso, não se avexe. Cronos, Zeus, todos os deuses gregos dão um jeitinho de se manter no trono por mais tempo esmagando seus filhos, ou devorando-os ao nascerem, não se preocupe.
A história de fadas vem repleta de dicas de como crescer bem e tornar-se um adulto, vários especialistas dizem isso. A criança, como se fosse um livro encantado, também tem em si as chaves para o trabalho de seus medos.
Meus alunos me ensinaram que é assim:
Contar a história sempre em sua versão mais rica.
Brincar de ser fada, príncipe, princesa, monstro. Ser o medo os liberta.
Desenhar o medo, a história. Incrivelmente, em cores e pequenas garatujas disformes, já vi muitas bruxas, papões, lobisomens, gigantes, lobos, ficarem completamente sem jeito diante de espadas de lápis de cor.
E isso aconteceu sempre que confiei nos meus alunos e deixei que os monstros entrassem na sala de aula, vestidos com seus traços monstruosos, monstruengos e melequentos.
Sentem medo, mas me pedem para cantar de luz apagada, para que o medo cultuado em segurança lhes prepare para os medos que enfrentarão, de luzes acesas, pela estrada a fora da vida.
Considero, pois, que contar essas histórias, cantar esses medos, é, de mim para eles, um sinal de confiança em sua capacidade de crescer. É por isso que por anos a fio, continuo apavorando e encantando meus filhos e alunos queridos com personagens fantasmáticas, folclóricas, mágicas e surreais. Porque vejo neles, seres humanos em formação, famintos de fadas, (fada: factum, chave), para galgarem suas próprias existências.


A melhor profissão do mundo

A melhor profissão do mundo é a minha. Sem dúvidas e não abro mão. Em minha profissão não há erros, há enganos (erros são definitivos e irreparáveis, enganos, não matam ninguém).
Em minha profissão não existe a menor possibilidade de rotina, mas essa também é uma escolha pessoal: se ela quiser, há.
Sempre novidades e gente, e assuntos vistos de um ou de outro ponto de vista. Em minha profissão há debate, pesquisa, música e paixão.
A melhor profissão do mundo não é a mais fácil e nem a mais bem remunerada (talvez seja esse o ponto negativo: a falta de meios para medir os atos e esforços do profissional).
Hoje, por exemplo, aprendi que posso ensinar a fazer dobradura, enquanto uma amiga querida ensinava com linhas coloridas e uma agulha na mão. O colega decidiu ensinar com um vídeo, outro com um mouse na mão. Um falava de bichos; outro, do homem enquanto bicho que se diz pensante. E tudo ao mesmo tempo, enquanto um visitante falava de robótica experimental. Minha profissão permite a crítica aos a outros, mas não gosta muito de ser criticada, não. Hoje também aprendi a ensinar o que é um texto jornalístico. E ontem, a fazer poesias musicadas. Amanhã vou aprender a ensinar a ensinar. Esse ponto também é difícil.
O engraçado é que quem não me conhece por dentro e não sabe ler o que há por fora, pensa que eu daria tudo para pegar meu violão, largar a minha profissão e sair pelo mundo. Enganam-se: tudo, cada coisa, cada curso que fiz até hoje deu-me uma ferramenta para exercer melhor a minha doce e absurda profissão. Muito cedo, com dez anos ainda, percebi que teria que ser, no mínimo, oniciente para ser uma profissional razoável. Não deu, só Deus mesmo: então optei por, pelo menos, ser incansável, disponível comigo mesma, estudiosa e curiosa até o último fio de cabelo.
Aprender a me dedicar e a fazer os arremates do capricho, vieram, por exemplo, com o curso de desenho. A paciência e a terminação das coisas eu ganhei no curso de tricô. O humor e o livre exercício da máscara chegaram com o curso de dança. A letra, da caligrafia. A proteção e a saúde, do curso de canto. E uso tudo isso todos os dias! Não joguei tempo e nem dinheiro fora!!! Tem dias que me faltam ferramentas, então eu vou buscar. Tem uma lá na Hungria, mas é tão caro e longe e difícil ir lá ainda... E outra, ali, no curso sonhado de libras. Uma hora dá.
Se você ainda não adivinhou qual é a minha profissão, dou uma dica: meus amigos lhe ensinaram a sua...

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